Estou vazio, rigorosamente vazio dessa possibilidade tão feliz que é ser delicado, que é olhar as coisas com beleza e senti-las desse modo, porque tudo em mim está cinzento por dentro e a doer como um irremovível tumor a apodrecer-me as vísceras.
Estou vazio e não tenho outra realidade mais clara e nítida, tão vertical e concreta. Sou um horizonte que já foi a solidão funérea de um caminho que ninguém percorre e tão desprezível me é essa maneira de viver que não há para ela senão uma forma desprezível de morrer: acobardadamente fraco, infalivelmente doente. Todos os dias enlouqueço de uma loucura qualquer, de qualquer sentido doente que sobre o meu sangue se curva. Todos os dias tenho perguntas para tudo e não tenho respostas nenhumas e a minha mente, que é carnal de medo e memória sem propósito, não descansa; e a minha alma, que é uma névoa e arde de mentira e de vácuo, não tem luz; e a minha vida, essa aspiração imensa, que quase já não é palpável e humana, não me sabe a nada a não ser ao álcool a que me reduz.
Queria amputar-me destas manias mas não sou capaz, queria rebentar com elas, abri-las até ao pus com que me envenenam, esquartejá-las maliciosamente paciente e voraz. Depois, bebia-lhes o sangue e dava pinos de alegria por estar a fazê-lo. No entanto, não sou capaz. Se ainda o fosse. A vida que levo é um suposto mal entendido como, aliás, eu próprio. Existo com esta ironia que não é, esta tortura que não morre. Quero fugir disto. Quero dormir. Quero dormir e que não me belisquem pois é a dormir que não sonho comigo. Não posso pedir mais nada. Estou triste. Mergulhado no inerte terror desse facto. Sou um pensamento que não tenho, sou uma compreensão que não sinto. Estou cansado de trazer este peso comigo, este abismo para onde me atiro. A realidade lá fora e circundante a esta realidade dentro é mais feliz que eu, que sou vago, que sou incoerente, que sou um insuportável egoísta, que sou amargamente a consciência que essas realidades não têm de mim. Não fosse o tabaco a ovular nos pulmões o cancro, o álcool que se não há me confrange, os amores que amo mas com quem não vivo e se vivo logo se recusam a isso, não fosse o emprego a inviabilizar-me na preguiça, a santa poesia que não dá para comer mas sempre oferece algum prestígio, não fosse tudo aquilo eu não era um homem era um cão certamente. Um cão com um nome numa corrente, com um dono estúpido e opulento e amordaçado ao que não podia dizer e ao que supostamente não pensa. Mas um quadrúpede, ainda assim, pode dar-se por feliz por ser um quadrúpede pois não tem nem a poesia nem a pretensão disso a chatear-lhe a cabeça. Logo, ante essa existência simples e submissa que é, não se arrelia a perturbar-se com o futuro, não anda sempre intranquilo a escrever o que lhe vai pelas certezas, cada vez mais conclusivamente menos certas, nem com vergonha do escárnio que os outros sentem por ser um bêbedo, por não levar uma vida regrada e decente, por ter um poço de vícios desprezíveis, por passar o tempo a trair a mulher e a cobiçar a dos outros, por se inconformar sempre que a maioria das pessoas se conforma, por pensar que é fabuloso quando é uma aberração da natureza, por ter delírios conscientes e deprimentes, por ser um incompreendido no que só se compreende, um intuitivo, um lírico irreverente, por brincar às realidades com as ilusões estéreis que sente, por gastar dinheiro em livros que ninguém compra e andar depois a pedi-lo o resto do tempo. Por ser realmente toda a tristeza alheia que o aborrece e fingir não ser a aborrecida tristeza que o alheia dos outros. Consolado e mudo safa-se assim o cão de ser esta espécie de gente. Lá fora é dia e eu sou noite dentro de mim. O mundo, que é terra por partes e água e gelo cumpre então o seu percurso rotativo à volta do sol para que as pessoas vivam e tenham o tempo contado para isso, e estejam tristes como eu estou neste preciso momento em que há outras pessoas, diferentes de mim, com sentimentos diferentes ou idênticos aos meus, que nunca escreveram e que nunca vão ler definitivamente o que escrevi. Mas pensando bem, que percepção poderia ter eu da Terra e dessa humanidade individual que a habita e desses sentimentos que julgo serem seus, se eu próprio não existisse, se eu próprio não sentisse, se eu próprio não estivesse triste como agora estou. Tantos acontecimentos se devem passar no Mundo sem a gente saber. A realidade é propriedade nossa se estamos perto dela e se nos toca. Se não é apenas um conhecimento distante que nos comove superficialmente e sobre a qual fazemos os comentários da praxe porque nos faz bem. Prova disso é o que toda a gente diz de mim sem saber absolutamente nada sobre mim. Se soubessem que eu não estou bem por pensarem exactamente assim? Que o que me dói na vida é preocuparem-se com o que não faço como eles? Contente-se o cão, mas eu não. A mim agasta-me os anos todos que não tive como adolescência, porque casei-me cedo e não amei as fantasias, e não joguei bilhares porque tinha que trabalhar, e não coleccionei as pernas femininas mais famosas dos calendários, e não me masturbei o suficiente para ter um filho como devia. Se ao menos eu tivesse juízo, coisa que nunca tive nem tenho agora, eu não me agastaria tanto no tempo presente a fazer coisas e ternuras e rebeldias que deveria ter feito quando a idade era própria e era menos gordo e era literalmente mais propenso a tudo isto. Mas a vida, que é um rol imparável de acontecimentos, reservou para mim todos esses muros do meu espírito.
E posto isto, sentado sobre esse mundo exterior que existe, está um homem na sua solidão. Não lhe perguntemos nada, nem causas, nem razão, vá lá sabermos porquê vive assim alguém calado na dor interior que teceu. Talvez a resposta mais plausível que se encontrasse era a probabilidade de o sentirmos triste por ser a tristeza uma realidade nossa e não dele, de estarmos vendo o que não vemos por estarmos infalivelmente sendo. E tão naturalmente é possível essa verdade como possível é estar triste o homem ali sentado e com ele eu, que estou do mesmo modo e existo. Por isso não estou bem e as minhas mãos já não escrevem e os poemas ruminam-me a antiga memória de algum dia os ter escrito. Por isso simulo o mundo e simulo-me eu mesmo. Por isso penso que a poesia é falsa e inútil, quando o falso e o inútil são poesia também. Por isso é que deixei que os meus versos desvanecessem a juventude até onde podiam. Por isso é que o meu pai me dizia que a escrita não deixa um homem envelhecer como devia. Por isso é que sou liberal só nas coisas em que tenho que ser liberal. Por isso é que a polícia me vigia. Por isso é que não há tranquilidade para quem se põe a escrever. E por isso também é que pergunto porque escrevo e que sentido é que terá a escrita dessa maneira que ninguém a lê. Por isso é que as respostas não existem e eu estou aqui a matar-me sem razão aparente para o fazer. Contudo, se isto continuar, vou agarrar na palavra revólver e espetar um tiro na cabeça da tristeza. E então voltarei a sorrir, a emprestar um brilho consequente aos meus dentes amarelecidos, a ter razões para estar onde nunca estive a sonhar com isso e a deitar-me fisicamente ao acaso na paisagem dos versos que pressinto. Um tiro certeiro na cabeça da tristeza é tudo quanto basta para a emoção desse desafio devolver-me à realidade de saber-me homem, mesmissimamente igual a tantos outros: pequeno, humilde e sem glória. Homem só. Mais nada.